A teimosia de quem ouve um “não vai dar” como motor para um “vai dar sim”

Inês Ponte Grancha é a minha primeira convidada deste espaço “de (V)viva Voz” e não podia ser de outra forma. É de uma inspiração que tem de ser conhecido por todos vós. Desbrava caminhos difíceis, mas assume que é quando lhe dizem que “não vai dar” que vai dar mesmo.

Decidida, resiliente, competitiva, acolhedora. É tudo isto e tanto mais. Inês Ponte Grancha é conhecida do público como navegadora de ralis, é a única mulher com o título de campeã nacional, é mãe, esposa, filha, irmã e empresária.

Diz que consegue ser tudo isto numa organização minuciosa, ao ponto de visualizar todos os compromissos numa agenda que mais “parece um puzzle”. E onde, de facto, tudo tem encaixado.

Neste momento está no deserto a representar Portugal, como navegadora de uma outra mulher inspiradora do automobilismo, a Maria Luís Gameiro. Ambas representam o país no Rally Jameel, na Arábia Saudita, numa competição só para mulheres, no deserto, onde a regularidade privilegia a navegação e a estratégia em diferentes tipos de terreno.

Para a Inês é a primeira vez no deserto e na regularidade, uma vez que a experiência dela está nos ralis e no Todo o Terreno. Mas como não é mulher para negar desafios, lá está ela a superar-se como em tantas outras vezes na sua vida.

Desde os 16 anos que se senta ao lado de pilotos experientes, há 11 anos num projeto especial. A Citroen Team Portugal, ao lado e a convite de José Pedro Fontes. Foi com ele que se consagrou campeã e é hoje uma inspiração para jovens e mulheres que desejam entrar nos ralis. Por muitos anos sentiu-se sozinha neste mundo, maioritariamente, de homens, mas sempre muito bem aceite a ser “uma igual entre todos”.

A época 2025 já começou e nos últimos dois anos o desafio “mudou de nível”, é que se na última década as equipas nacionais eram já as mesmas, com os níveis de competição igualados, nos últimos anos com a entrada de pilotos estrangeiros a competição levou uma injeção de vitalidade e competitividade.

Para a Inês o desafio “é bom, vejo com bons olhos a entrada dos colegas estrangeiros, que trazem outra exigência e que nós, mais velhos, já precisávamos. Acho que todos ficamos a ganhar. Depois do Campeonato do Mundo, só o nosso campeonato é tão falado e competitivo neste momento”.

E também assume, entre risos, que a desculpa dos pilotos estrangeiros para elevar a fasquia não chega, até porque na segunda prova do Campeonato Português de Ralis, foi a estreia da jovem dupla da Hyundai que surpreendeu no pódio. “É ótimo vermos as novas duplas, o Gonçalo e a Inês, o Hugo e a Magda a mexer com todos. Temos de nos renovar, adaptar e continuar a aprender, até com os mais novos que já chegam com as novas tecnologias. Eu sou muito “Old School” e tive as minhas dificuldades em adaptar-me à nova forma de navegar, de usar as tecnologias. Por isso, estamos sempre a aprender e o desafio entusiasma-me”, diz Inês que sente que também nestes novos anos de desafios tem aproveitado mais, de forma mais leve, sem nunca perder o foco e o objetivo de ganhar.

Preparar as provas é desafiante e, acima de tudo, um trabalho invisível que às vezes a deixa irritada quando ouve pessoas dizerem que fazer é ralis é quando vai para as provas. “O trabalho do navegador é muito antes da prova, são muitas horas de preparação, horas essas que retiro à família, a mim e à minha empresa”.

A gestão do tempo é o maior de todos os desafios, é que Inês tem um projeto empresarial que precisa de muita dedicação e por vezes o tempo não chega. “Gerir o tempo é difícil porque para ser feliz eu tenho de estar em tudo, e por isso sinto que estou sempre em compensação. São 15 dias dedicados a uma prova, com horas extras em casa de preparação e nos outros 15 dias do mês eu tenho de compensar no Centro (Teu Centro – teucentro.pt ). A família vai sendo a mais prejudicada, mas até agora tudo tem sido exequível, quando deixar de ser, a família está em primeiro lugar e os ralis vão ficar para outros lugares. Até porque já vivi muito nos ralis e há sempre um tempo para sair”, assume, garantindo que ainda não chegou esse tempo.

Há cinco anos quando quis por em prática o seu projeto empresarial muitas foram as vozes que tentaram demover. “Sabes, eu gosto que me digam que não vai dar, porque é quando dá mesmo. Se eu quero, eu posso fazer, portanto vai dar. E tem dado, estamos a ajudar muitas famílias e isso é o mais importante”.

E no meio disto tudo, Inês mostra, ainda, que o tempo tem de esticar para si e para as suas amigas. “Eu preciso de tempo para mim para que tudo funcione. E quando falo do tempo para as minhas amigas é porque faz-me falta para me sentir eu, individual, e não só a Inês de tudo e de todos. Enquanto tudo encaixar eu serei feliz assim, em alta rotação”.

A garra e resiliência de Inês Ponte Grancha é inspiradora e se querem saber mais sobre ela, não deixem de ver a entrevista. É uma conversa aberta, sem tabus, entre mulheres que pretendem incentivar outras a seguir os seus sonhos e o caminho que escolheram para si, mesmo quando dizem “que não vai dar” porque garante Inês “vai dar”.