Rui Soares: o sonho concretizado do miúdo de Aguiar da Beira

De Aguiar da Beira para o mundo, a paixão de Rui Soares pelos automóveis e rali, em particular, começou bem cedo. Por influência do Pai que acompanhava os ralis na zona centro do país, quer em provas quer em testes, Rui foi acompanhando e tornando a curiosidade típica de uma criança numa paixão que mais tarde virou profissão.

Hoje é, para orgulho nacional, Engenheiro de Corrida, da equipa Toyota Gazoo Racing, mas o caminho até aqui teve os seus obstáculos.

Decidiu formar-se em Engenharia Mecânica em Coimbra e, através das escolhas bem pensadas, foi arriscando no caminho. Ir para a Bélgica foi o passo seguinte, a especialização nos ralis abriu as primeiras portas, no contacto direto com equipas profissionais e o trabalho insistente, de formiga na oficina, deu frutos valiosos. Em 2014, o convite para ser Engenheiro de Corrida de Haydon Paddon na Hyundai a competir no Campeonato do Mundo de Ralis (WRC) surge e Rui não pensa duas vezes. É, então, que entra no WRC e cumpre o maior dos sonhos profissionais. Dito, assim, parece um percurso rápido e fácil, mas “eu costumo dizer que por fora parece tudo muito calminho, mas a verdade é que houve muitas noites agitadas e mal dormidas”. E o fator “sorte” é importante, mas o resultado de muito trabalho, muito dele invisível.

Rui Soares continua o seu percurso na Hyundai e em 2016 tem a sua primeira vitória no Campeonato do Mundo de Ralis, na Argentina, com o piloto Hayden Paddon, “duas semanas depois de me casar”. E é aqui que o cenário começa a mudar. A prioridade da família fala mais alto e, dois anos depois, Rui decide sair da Hyundai, dedicar-se à família e voltar a Portugal. O sonho profissional estava concretizado, era tempo de estar próximo da família que estava a construir. Mas a vida continua a surpreender e, nessa mesma fase, surge o convite da Toyota, com o melhor dos dois mundos. Continuar o sonho profissional a partir de Portugal, com mais tempo dedicado à família. Torna-se, assim, o Engenheiro de Corridas do Kris Meeke, que na altura estava na Toyota, antes de ter passado para a Hyundai e ter vindo competir no Campeonato Portugal de Ralis (CPR). Foi o primeiro ano na Toyota, no entanto o piloto sai e é quando Rui fica como Engenheiro do Elfyn Evans, onde se mantém até agora.

Para Rui Soares, a forma como a Toyota trabalha em equipa é o segredo para ser possível conjugar o melhor dos dois mundos, estando parte do tempo em Portugal, deslocando-se apenas para as provas pelo mundo. “Na Toyota, a equipa de engenharia, posso dizer, somos todos amigos, o que facilita o trabalho que eu faço a partir de Portugal. Enquanto eu estou a trabalhar nas estatísticas, nos vídeos, na preparação do carro, outros colegas estão a apoiar-me com a preparação na oficina. Ou seja, um trabalho conjunto que permite que chegando às provas tudo esteja em conformidade”.

No que toca a provas pelo mundo, o Rali de Portugal é especial, é em casa, mas tem sido muitas vezes com sabor amargo. “Um conjunto de peripécias que não tem ajudado a concretizar a vitória que sempre queremos, e este ano com o Elfyn a abrir a estrada não foi de todo positivo. Sabíamos que seria difícil pela posição e com a competitividade tão alta de todos os outros pilotos, é difícil recuperar”. E foi, de facto, um resultado não tão positivo para o piloto, mas para a equipa uma vitória de Sebastien Ogier pela sétima vez em Portugal.

Questionado sobre o CPR, Rui Soares assume que está “bom e recomenda-se” e afirma ter uma dupla opinião sobre a presença de pilotos internacionais a competir. “É excelente para a promoção, para a competitividade, os dois pilotos são excelentes quer como pilotos quer como pessoas, trabalhei com ambos e sei que trazem o melhor para a competição. Por outro lado, entendo que para os pilotos nacionais seja mais difícil, porque há outras variáveis a pensar que estes pilotos internacionais não ponderam, não têm de fazer contas, no entanto, os pilotos do CPR partem logo para os lugares que consideram acessíveis para eles e não vão à disputa dos lugares cimeiros como antes o faziam. De resto, no que toca a publicidade, meios de comunicação social e visibilidade nunca esteve tão bom”.

A conversa com Rui Soares aconteceu no Rali Espumante do Dão, em Carregal do Sal, onde o engenheiro foi convidado a marcar presença com o carro 00, de segurança, e onde conseguiu estar com muitos amigos dos ralis e onde, assume, poder ver a essência dos ralis. “Para mim os regionais são a base de tudo, são onde podemos ver carros que no campeonato do mundo já não se vê, e onde os pilotos podem usufruir dos locais mais interessantes para fazer rali. Acho que o regional deve ser acarinhado e manter-se ativo para, não só ser uma escola de pilotos, mas também para levar a modalidade mais próximo das pessoas”.

Tal como os ralis estão “bem e recomendam-se”, Rui Soares prossegue mostrando que com trabalho e dedicação “é possível” chegar mais longe e ser português não tem nada de limitador, pelo contrário, por todas as áreas profissionais encontramos um português a triunfar no mundo.

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